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Resposta do AG a funcionário do escritório Gehl Architects

Ontem (18/8) a Repórter Brasil me reencaminhou um email enviado, via formulário do site, para a redação. O email foi enviado por Mauricio Duarte Pereira, do escritório dinamarquês Gehl Architects, endereçado a mim.

Respondi ao email e, por se tratar de tema de interesse público, decidi divulgar o conteúdo dele e minha resposta aqui.

Segue:
———- Mensagem encaminhada ———-
De: Mauricio Duarte Pereira
Data: 17 de agosto de 2015 08:24
Assunto: Contato através do site da Repórter Brasil
Para:

Nome: Mauricio Duarte Pereira
Mensagem: Cara Sabrida Duran e equipe,

cruzei com seu post sobre o projeto que nós desenvolvemos para o Vale do Anhagabaú e imagoinei que fosse uma boa iniciativa contactá-la. Com toda certeza o trabalho de um jornalismo investigativo visando manter a maior transparência é fundamental para o nosso pais, especialmente com os mecanismos de média tão tendenciósos. Parabéns.

Gostaria de abrir aqui um diálogo pois acho também importante de ressaltar os pontos positivos que este projeto está trazendo através do pilotos e do Anhagabaú. Pela primeira vez a prefsp está aprendendo a fazer algo rápido, de impácto social positivo e buscando uma participacao popular. Não quero defender nenhuma parte mas a mudanca de mentalidade é um processo gradual e acho que cada conquista coletiva para a cidade deve ser celebrada também.

Infelizmente a lei 8666 de licitação no Brasil representa um entrave para conseguir implementar projetos dentro de um plano de governos de 4 anos. Acima de tudo, o processo seletivo baseado em custo sem levar em conta competência e conhecimento de caso faz com que o grande o potencial de contribuicão projetos de projetos para a cidade, mantenha-se inativo ao contratar empresas somente por serem mais baratas. Esse é o exemplo do barato que sai caro e as nossa cidades brasileiras agonizam por conta deste processo. Recentemente, a maneira descoberta para viabilizar projetos num espaco curto de tempo é de buscar entes privados que desejem financiar o projeto em troca de auto promocao (…ou até mais, apesar de não acreditar que este seja o caso). O Itau pelo menos na parte que trabalhamos, nada mais foi que um veículo para a viabilizaçãodo projeto. Se há qualquer segunda intencão, vai além da nossa compreenção e sinceramente esperamos pelo contrário e que o espaco
público conserve a natureza de usufruto coletivo e democrático. Essa é a base na nossa prática e tem muito material que pode ser explorado no nosso site gehlarchitects.dk

Em resumo, por incrivel que pareca ainda existem pessoas bem intencionadas querendo dar o melhor para o usufruto coletivo. Neste sentido, muitas vezes uma matéria com um tom de ataque é uma grande frustração para  que aqueles que estão empenhados em fazer as coisas acontecerem. Para cada piloto acontecer, suor de muitos e os decks, parques para criancas e cadeiras só estão lá pois muitos trabalharam duro para isso acontecer. Sem dúvida, ninguém que carregou este “piano” tem dinheiro sujo no bolso mas sim um coracão cheio de boas intençoes.

Em resumo, espero que possa ter esclarecido um pouco do lado que nos toca pois a última coisa que gostaríamos é ver o nosso escritório envolvido em matérias que possam manchar a nossa reputação. Tudo o que lutamos a cada dia é promover espaços públicos de qualidade, democráticos e usar nossa experiência para capacitar autoridades públicas e corpo técnico com ferramnetas e conhecimentos capazes de promover a melhor vida nas cidades.

Grande abraços,

Atenciosamente,

Mauricio Duarte Pereira

Horário: 17 de agosto de 2015 às 8:24
URL Formulário de Contato: http://reporterbrasil.org.br/contato/
Enviado ao seu site por um visitante não identificado.

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RESPOSTA

Prezado Mauricio,

obrigada pelo contato.

Por se tratar de um projeto a ser feito em espaço público, com dinheiro público e com impacto direto sobre a população que ali vive, trabalha e circula − portanto, um tema de interesse público −, acredito que o âmbito mais adequado para estabelecer esse diálogo que você propõe seja o próprio espaço público, onde a população − e não eu, de forma privada e através do meu email − possa se expressar.

Há algumas semanas a Secretaria Municipal de Desenvolvimento Urbano (SMDU) chegou a marcar uma apresentação pública do projeto na Praça das Artes. Seria em 31/07. Faltando apenas um dia para o evento, no entanto, a pasta decidiu pelo cancelamento por motivo de excesso de público confirmado. Embora tenha informado em nota que na primeira quinzena de agosto agendaria uma nova data para a apresentação, a SMDU ainda não se pronunciou.

Sobre intenções (as segundas e as boas das quais você fala), não cabe a mim, como jornalista, tratar sobre elas nas reportagens que escrevo no escopo do Arquitetura da Gentrificação. Meus materiais de trabalho são documentos públicos e entrevistas com fontes. Todos esses documentos e entrevistas estão, inclusive, disponíveis para download na íntegra a qualquer pessoa, sem exceção. Você pode acessá-los aqui: http://reporterbrasil.org.br/privatizacaodarua/s.php?page=dadosabertos

Sobre matérias “com um tom de ataque” ou que possam “manchar reputação” − se entendi no subtexto, você se refere à reportagem que escrevi − volto a recorrer aos documentos públicos: trabalho com evidências factuais devidamente documentadas. Se a reportagem gera algum incômodo, talvez seja pelos documentos públicos que ela traz e pelo que estes evidenciam.

Por fim, já que tanto o meu trabalho de reportagem quanto o trabalho de arquitetura e urbanismo do escritório Gehl no Vale do Anhangabaú são de interesse público, assim como o diálogo que você propõe, divulgarei seu email e esta minha resposta a ele no blog do Arquitetura da Gentrificação. Assim que publicar o post enviarei o link a você para seu conhecimento.

Atenciosamente,

Sabrina Duran

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Mauricio Duarte Pereira                                           Tue, Aug 18, 2015 at 6:06 PM
To: Sabrina Duran

Cara Sabrina,

Obrigado pela resposta. Acho uma boa ideia publicar o e-mail enviado se for de sua vontade. Não há nenhum incômodo com a matéria pois não acredito haver nenhum vício em relação a nossa contratação. Mais uma vez ressalto que valorizamos a transparência de informação entre outras práticas que promovam democracia na construção, administração e uso do espaço público. Sinceramente esperamos pelo melhor para a cidade e residentes de São Paulo, assim como qualquer cidade que temos a fortuna de ser convidados a trabalhar. Sucesso com o seu trabalho,

Atenciosamente,

Mauricio Duarte Pereira — Urban Planning + Architecture

Gehl Architects

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Sabrina Duran                                  Tue, Aug 18, 2015 at 10:22 PM

To: Mauricio Duarte Pereira

Obrigada pelo retorno, Mauricio.

Publicarei o post amanhã.
Atenciosamente,
Sabrina Duran

Dossiê aponta medidas higienistas da gestão Serra-Kassab

capa dossiê

Entre as referências bibliográficas que estamos usando como base das investigações do “Arquitetura da Gentrificação” está o dossiê “Violações dos Direitos Humanos no Centro de São Paulo: propostas e reivindicações para políticas públicas”, produzido em meados do ano 2000 pelo Fórum Centro Vivo (FCV).

Fundado no dia 10 de dezembro de 2000 como articulação coletiva durante o seminário “Movimentos Populares e Universidade”, o FCV constituiu-se num “espaço para encontro, debates, reflexão, articulação, fortalecimento mútuo e luta na perspectiva de democratização e defesa dos direitos no centro da cidade, como contraponto a projetos e ações públicas e privadas que, em muitos casos, desconsideravam e afetavam negativamente os grupos mais vulneráveis ou atendiam apenas a interesses privados e de ordem econômica e imobiliária”.

O dossiê é um documento bastante detalhado sobre o processo de higienização levado a cabo no centro de São Paulo pela gestão Serra-Kassab, exatamente as duas administrações municipais que escolhemos para pesquisar e aprofundar na questão da gentrificação por serem “exemplares” na implementação de ações pontuais e políticas públicas com este fim.

Produzido e assinado por diversas entidades, ongs, movimentos e membros da sociedade civil, o dossiê tem 360 páginas e traz um histórico das violações dos direitos humanos cometidas por José Serra e Gilberto Kassab contra pessoas em situação de rua, ambulantes, movimentos de moradia, crianças, adolescentes, assistentes sociais, entre outros. O documento traz também propostas e reivindicações do FCV direcionadas aos gestores públicos.

O dossiê está fundamentado em depoimentos, análises, reportagens, fotos e bibliografia que conceitua, histórica e socialmente, as medidas higienistas das duas últimas administrações municipais.

Leia/baixe o documento completo aqui.

Trecho do dossiê

Trecho do dossiê. Autoria: Luciana Itikawa

Movimentos de moradia discutem PPP da habitação do centro com secretário estadual Silvio Torres

Gegê (segundo à esquerda) para secretário de habitação do Estado, Silvio Torres: "o que vocês estão fazendo é uma contradição"

Gegê (segundo à esquerda) para secretário de habitação do Estado, Silvio Torres: “o que vocês estão fazendo é uma contradição”

Na última quarta-feira,  3/7, participamos como ouvintes da reunião entre membros de movimentos de moradia do Centro de São Paulo e com o secretário de habitação do Estado de São Paulo, Silvio Torres. O tema da reunião era a parceria público-privada para a construção de 20 mil habitações no Centro. A parceria foi estabelecida entre o governo estadual, governo municipal e iniciativa privada. O governo federal também irá aportar verbas do programa Minha Casa, Minha Vida no projeto.

Também estiveram presentes na reunião o subsecretário da Agência Casa Paulista, Reinaldo Iapequino, e Philip Yang, fundador do Instituto Urbem, responsável pelo projeto de habitação vencedor do edital da PPP do centro. A Agência Casa Paulista é o braço do governo que administra e opera fundos destinados à construção de habitação para população de baixa renda.

Gegê, liderança de movimentos de moradia, foi incisivo ao afirmar aos gestores que estes estavam tratando de forma indigna os movimentos históricos da região central da cidade por não terem aberto o diálogo com seus representantes antes da apresentação da PPP, impondo o projeto de cima para baixo. Disse também que o número de habitações destinadas aos movimentos sociais – 2 mil do total de 20 mil – é insuficiente para atender ao déficit habitacional da população de baixa renda. Em documento entregue durante a reunião aos gestores, os movimentos reivindicam, entre outras coisas, que 10 mil das 20 mil unidades previstas sejam destinadas às entidades e associações que atuam historicamente na região central; que outras 5 mil unidades sejam destinadas à locação social, que beneficiaria idosos de baixa renda, pessoas com deficiência e pessoas em situação de rua.

Dirigindo-se ao secretário, Gegê disse que isso era o mínimo que a secretaria poderia oferecer à população de baixa renda que já vive no centro, e pediu que Silvio Torres desse uma resposta aos presentes a respeito das 10 mil habitações reivindicadas. Até o final da reunião que durou mais de duas horas, Torres não se pronunciou sobre o assunto.

Entre as promessas feitas pelo secretário, está a da abertura de um novo edital para contemplar as entidades e associações do centro que ficaram de fora do cadastro. “Mas não posso garantir que isso seja feito para esta fase do projeto”, ponderou Torres, explicando que PPP da habitação terá uma segunda etapa, e que esta poderia contemplar mais reivindicações.

Ouça/baixe o áudio completo no link a seguir: